Livre_do_ponto

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58º Tempo – Para além do Estatuto da Carreira Docente

Posted by LMML em Outubro 18, 2006

Ultimamente todas as atenções – de professores, de pais, de sindicatos e do ministério – têm estado concentradas na discussão do futuro Estatuto da Carreira Docente…

Apesar de ser uma questão importante, muito tem sido esquecido e colocado de parte na altura de fazer críticas ou balanços positivos. Há muito mais coisas para além do Estatuto da Carreira Docente, umas directamente influenciadas por ele, outras nem de perto nem de longe.Post-59

Sempre tive algumas dificuldades em seguir ‘rebanhos’ guiados por ‘pastores’ de intenções escondidas. Desconfio sempre de frases embandeiradas, proferidas por quem julga ter a absoluta razão do seu lado. Todavia reconheço que ela – a razão – nem sempre me acompanha. Tenho com a dita uma relação de amor/ódio onde são mais os arrufos que os abraços.

Mas por vezes a razão é tão óbvia que se torna quase impossível destrui-la com argumentos válidos, sólidos e lógicos. Vejamos, por ora, o estado do Ensino. Tento colocar-me no papel de quem tem de governar. Tarefa difícil, reconheço. Mas olho para o Ensino e doí-me. A teimosia, o economicismo e a visão mercantilista do ensino são as damas reinantes nos gabinetes do Ministério da Educação.

Imagino-me então, na pele do Secretário de Estado da Educação tentando explicar a pais, alunos e professores porque razão (ou não?) temos um sistema de ensino desajustado à realidade europeia, desajustado à real necessidade dos alunos, programas extensos e pouco adequados nalguns casos, sistema desinteressante para quem nele tem uma parte activa, frustrante para quem nele faz carreira e alucinante para quem tenta perceber qual o rumo que se pretende dar.

Caso fosse Secretário de Estado da Educação acho que essa tentativa  de mostrar outra razão que não a óbvia seria assim, por partes:

[segue-se sarcasmo…]

Parte 1 – O muito proclamado excesso de alunos por turma é uma questão puramente falaciosa. Afinal de contas, implementar e dinamizar um processo de ensino-aprendizagem dinâmico, criativo e estimulante numa sala de aula para uma turma com cerca de 16 alunos é exactamente o mesmo que o fazer numa sala com cerca de 30, mesmo que, neste último caso, tenhamos alunos assinalados como tendo necessidades educativas especiais. Quem trabalha com 16 alunos, seguramente que terá as mesmas condições e os mesmos resultados se trabalhar com 30. É tudo uma questão de empenho, eficiência e eficácia.

 

Parte 2 – Aplicar-se o mesmo grau de medida e exigência, em termos de resultados de sucesso escolar dos alunos, a uma escola da Lapa ou uma escola em Camarate é, por essência, uma questão de justiça. Ainda para mais quando se pretende avaliar o desempenho dos professores baseando-se nesses mesmos resultados. Afinal, seja onde for, continuamos a falar de professores e alunos.

 

Parte 2 – Está na moda apontar alguns defeitos e deficiências ao concurso para colocação de docentes. Nada mais errado. O concurso, nos moldes actuais, é perfeitamente justo e isento de qualquer manipulação resultante de incompetências ou segundas intenções. As milhares de reclamações que têm ocorrido, as alterações de listas de graduação por parte do Ministério e as sucessivas colocações injustas, são apenas manobras da comunicação social e dos sindicatos, por forma a destabilizar um processo que é tido por todos como justo e de competência acima de qualquer dúvida.

 

Parte 3Aos professores exige-se competência e dedicação. Exige-se que se integrem de forma eficiente na dinâmica da escola – seja ela qual for – e que imprimiam elevada qualidade e profissionalismo ao processo de ensino-aprendizagem. O facto de terem, ou não, os recursos adequados para tal é uma questão de somenos importância.

 

Parte 4O insucesso escolar existe. Mas vejamos o que se esconde por detrás deste insucesso, que é como quem diz, quais as causas que levam a que um considerável número de alunos não tenha um aproveitamento positivo ao longo do seu percurso educativo, levando mesmo ao abandono escolar por parte de um número significativo de alunos. Uma certeza parece existir é a de que o insucesso não deriva de razões como turmas excessivamente grandes, deficiências nos concursos de professores, fracas infra-estruturas dos estabelecimentos de ensino, poucos recursos ao alcance dos educadores, ausência de um estabelecimento efectivo de relações entre a escola e a família, aumento da indisciplina da sala de aula, divórcio entre as escolas e a restante comunidade educativa, enfraquecimento económico do tecido social, entre outros. Depois das “interpretações dominantes”, só se pode concluir por aquela que, verdadeiramente, deverá constituir a principal causa do insucesso escolar, ou seja, a fraca competência dos professores em ensinar e a ineficiência dos alunos em aprender. Tão simples como isto. Não há volta a dar-lhe. Por isso não se faz uma aposta credível no ensino. Não há necessidade de pensar e aplicar um projecto a médio longo prazo que vise a melhoria da qualidade do serviço prestado às populações no que ao acesso ao saber concerne. Afinal, de que vale a pena investir dinheiro, recursos e meios num sector onde a resposta para o seu melhor funcionamento está à vista de todos. Basta apenas que os professores ensinem melhor e os alunos aprendam melhor.

 

Caso fosse o actual Secretário de Estado da Educação… acho que seria assim que tentaria fazer o impossível. Destruir a razão óbvia e dar às pessoas uma outra razão. Uma qualquer… não importa qual. Tudo se aceita desde que as verdadeiras razões não sejam seriamente pensadas. 

 

 

Entretanto… vamos andando às voltas com o novo Estatuto!

 

 

 

4 Respostas to “58º Tempo – Para além do Estatuto da Carreira Docente”

  1. É melhor aguardares pelo dia de amanhã para a 4ª versão [ou tenho andado redondamente enganado e o governo, afinal, é menos autista do que aparentava ou será mais do mesmo… isto é, a réplica do documento anterior].

  2. Na carreira docente não existe topo da carreira. Existem sim patamares em que se ganha mais do que noutros. Mas não existem etapas em que as funções desempenhadas mudam. Numa carreira em que se começa por baixo e se vai subindo, aí sim chega-se ao topo. Por exemplo, começa-se por secretário e chega-se a director. Mas na classe docente, começa-se por ser professor e acaba-se sendo professor.

    Portanto não faz ponta de sentido falar em chegar ao topo nem em afirmar que só na classe docente todos os professores chegam ao topo. Isso é uma falácia; uma manha inteligente para justificar a criação artificial de dois escalões mas em que se faz o mesmo em ambos: dar aulas.

    Um professor quando entra para os quadros atinge imediatamente o topo da carreira, no sentido de que as funções que desempenhará serão sempre exactamente as mesmas.

    Não confundir o facto do Estado pagar progressivamente mais pelas mesmas funções à medida que se é professor há mais tempo com progressão na carreira e com chegar ao topo. Isso é para as carreiras em que existe uma hierarquia de cargos. Aí sim, chega-se ao topo.

  3. Ter Alegre said

    Só li isto hoje.

    Fiquei especialmente encantada com o número de alunos por turma, por vários motivos:
    ( vou ser muito irónica…)
    – sou professora do novo grupo de Ensino Especial e tenho uma aluna com Currículo Escolar próprio numa turma de 27 (ou 28)alunos. É obvio que se os professores da turma não a acompanham é porque são incompetentes… alguns têm 2 aulas de 45 minutos por semana com a garota, por isso não é pedir muito, pois não?!
    – e eu, como professora, além de acompanhar 4 currículos alternativos também tenho 45 minutos por semana para acompanhar esta aluna e mais uns 6 ou 7 alunos integrados nas turmas…
    – a turma da minha filha tem só 22 alunos, mas não faz mal porque: uma menina é autista, está na sala TEACCH e pouco está com a turma (também não vai lá fazer nada, não é?!); outra menina (NEE prolongado) tem uma professora de apoio com ela dentro da sala de aula, cerca de uma hora por dia. Entraram 3 novos elementos este ano na turma ( que devia ter no máximo 20!!!): um é hiperactivo, outra tem comportamentos (de cariz sexual)completamente desajustados à idade. Ambos têm no seu plano educativo previsto um acompanhamento dos Serviço de Psicologia (que na Escola não existe, claro!)… mas como alguém escrevia há tempos, pior que professor, só psicólogo, já que nós, sem formação, fazemos o trabalho deles sem qualquer dificuldade (parece que é esta a opinião da Ministra)…
    – outra perspectiva do número de alunos por turma: eu fui fazer a especialização às minhas custas num Instituto privado, tendo-me inscrito num curso cuja brochura de divulgação referia”um máximo de 20 alunos”… mas afinal aceitaram 68 (julgo que éramos 70 e dois desistiram). Como é lógico não me considero bem preparada por essa especialização. Preciso sistematicamente de me actualizar, perquisar…

    … e agora ir atender a minha bebé que está doente, e acordou agora chorar no quarto…

  4. LMML said

    Obrigado pelo comentário. Percebo-a… e acredite que infelizmente não está só.

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