Livre_do_ponto

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62º Tempo – Falar mal de… a arte nacional

Posted by LMML em Outubro 18, 2006

Escrevi há já uns bons meses, e não sei bem a que propósito o texto que a seguir apresento. Pareceu-me que, dadas as circunstâncias, era adequado fazê-lo:

post-62.jpgFalar mal de é arte nacional. Somos verdadeiros peritos na matéria! Se a prestigiada Academia sueca apresentasse um original prémio Nobel para Falar mal de, acredita-se que a primeira vintena de laureados (o número peca por defeito) seria composta em exclusivo por portugueses. Com toda a certeza seríamos, numa rara vez, motivo de inveja internacional. A juntar a Egas Moniz e a José Saramago teríamos um garboso leque de portugueses na linha da frente no que tocasse a receber os 10 milhões de coroas suecas e reconhecimento embevecido por feitos inimitáveis na arte de falar mal de.

Falar mal de é entretenimento de massas. Bate aos pontos todos os outros tipos de passatempos! Para ajudar a passar os minutos de espera, muitos dizem não ao esforço de completar palavras cruzadas, mas poucos se recusam a ditar julgamento sobre o que ‘de mal’ vai acontecendo. É de espantar que permaneçam nos tops de vendas nacionais diferentes versões de livros de Sudoku e que ainda não tenha havido ninguém a ter a fantástica (e acredita-se lucrativa) ideia de lançar livros sobre falar mal de. Com regras, lições em pequenos parágrafos, preciosas dicas e, no final, exercícios para aprimorar a arte. Sucesso de vendas garantido!?

Tal como tudo, nos dias que correm, falar mal de também segue modas, ou se quisermos evitar a conotação ‘costureira’, tendências. E como somos dos primeiros a seguir novas tendências, também estamos, bem aprumados, na frente deste pelotão. Haja algo em que sejamos os primeiros!

Da mesma maneira que, quase em uníssono, corremos a comprar o ultimo grito da geração de novos telemóveis ou colocamos bandeiras em tudo o que é varanda, varandim ou janela… também seguimos todos o mesmo caminho quando se trata de virar as nossas iluminadas e sábias críticas falando mal de tudo o que mexe ou o que mexe mais em determinado momento.

Já foi moda falar mal das forças policiais – em particular da GNR -, quando invadiam os noticiários os escândalos de corrupção e processos judiciais a agentes de idoneidade duvidosa que, a troco de um punhado de euros ou refeições na tasca mais próxima, perdoavam multas.

Já foi moda falar mal da função pública, quando eram recorrentes as conversas sobre demoras infindáveis nas repartições de finanças, nos centros de saúde, nas conservatórias, nos tribunais…

Já foi moda (ou ainda é?) falar mal dos professores, sempre que se lembram de discutir as causas do insucesso escolar dos nossos alunos a disciplinas como Matemática e Língua Portuguesa ou as análises à qualidade do ensino público baseadas nos últimos ‘rankings’ de classificação das escolas.

No entanto, entenda-se que nada nos deve mover contra a crítica construtiva. A questão é que falar mal de pouco tem de crítica e muito menos de construtiva. Falar mal de é generalizar abusivamente. É pegar numa ínfima parte e terraplanar tudo o resto. É que, quando se generaliza, raramente se generaliza o bom exemplo. Muito pelo contrário.

O que faz notícia é o polícia corrupto que fecha os olhos e abre o bolso e não os milhares de agentes que, todos os dias, colocam em risco a sua integridade física tentando assegurar-nos alguma tranquilidade e paz de espírito.

O que faz notícia é o funcionário público que prefere terminar o último quebra-cabeças de Sudoku em detrimento do paciente cidadão que desesperadamente aguarda vez e não os milhares de funcionários públicos que desempenham a sua função com elevado sentido de abnegação, muitas das vezes em condições de trabalho extremamente precárias e pouco estimulantes.

O que faz notícia é o professor calão, desinteressado e absentista que pouco se importa com o rendimento e progresso escolares dos alunos e não os largos milhares que, por esse país fora, vão fazendo autênticos milagres com o pouco que está ao seu alcance, substituindo muitas vezes os pais, demasiado absorvidos nas dificuldades da vida para dar a devida atenção e acompanhamento aos filhos.

Vinga, portanto, a cultura do negativo. A miséria, a desgraça, o crime, o laxismo e o infortúnio são prioridades nas chamadas de primeira página dos jornais e, por consequência, nas conversas ‘de café’.

Enquanto preferirmos dar relevância e destaque ao que de mau se faz, deixando ao esquecimento o que de muito bom é feito, dificilmente conseguiremos deixar de ser povo do ‘fado’, da lamúria, do pobrezinho e coitadinho.

 

 

(1)     – dizer/falar mal de alguém ou alguma coisa: apontar defeitos; deficiências; censurar; caluniar – Ent. 06382 – p.237 – Novos Dicionários de Expressões Idiomáticas – Edições João Sá da Costa – 1990

Uma resposta to “62º Tempo – Falar mal de… a arte nacional”

  1. Joguei no google imagens…FALAR…e veio essa imagem que está nesse posta…gostei ….vou postar no meu blog…e deixar seu endereço…seu blog é bem legal..

    Bjs

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