Livre_do_ponto

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73º Tempo – Conto de Natal!?

Posted by LMML em Outubro 29, 2006

Atarefei-me hoje! Decidi arrumar tudo o que era papel espalhado pelo sótão. A certa altura deparei-me com um texto que escrevi há uns bons 4 anos atrás, perto do Natal, a propósito de um sem-abrigo com quem me cruzava quase todos os dias. Apesar de ele ainda ser vivo [bem haja]… hoje em dia cruzamo-nos muito menos… mas as nossas vidas, aparentemente não mudaram assim tanto.

O ter encontrado o texto não deixa de soar a estranha coincidência. Há cerca de 2 semanas atrás voltei a encontrá-lo. Vestido com aquelas que pareciam ser as mesmas eternas roupas. Resoluto… quando cheguei a casa juntei dois sacos de roupa que tinha guardado para doar… e fui à sua procura. Encontrei-o, inevitavelmente, junto à porta de um qualquer café. Ofereci-lhe os dois sacos de roupa, argumentando que o frio aproximava-se e ele poderia precisar para se agasalhar [disse-o com grande receio, não sabia até que ponto aquela oferta poderia ofender a sua dignidade]… ele olhou para mim… com aquela barba a lembrar as nuvens mais carregadas do Inverno…

 

[os dois sacos estão ali, encostados à parede…

                                               … ele recusou-os]

 

A memória poderá estar a pregar-me uma partida mas julgo que nunca partilhei com ninguém o texto… quando o escrevi não era essa a minha intenção. Hoje… pela coincidência, decidi o contrário, resistindo a mudar sequer uma vírgula:

 

Pedro passava frequentemente por aquela rua no regresso a casa. Quase sempre à mesma hora, findo que era o seu dia de trabalho.

 

Invariavelmente, e sempre naquele cruzamento, tinha de parar o seu automóvel. Acção imposta pelo constante semáforo vermelho que, dada a sua regularidade, tornara-se já o seu ‘fiel amigo de final de tarde’.Post 73

 

O regresso a casa até já não tinha o mesmo doce sabor se Pedro não tivesse que refrear a marcha devido ao bem fadado sinal. Aproveitava sempre essa pausa de 3 minutos para fazer, como soí dizer-se, as contas à vida. Aquele balanço mental que todos nós fazemos pensando nos créditos e débitos da nossa vivência rotineira.

 

E em todas as vezes que aí parava Pedro encontrava sempre o mesmo homem passando em frente do seu carro, alheio a tudo o que o rodeava, respirando um ar só dele. Era um sujeito bastante gasto pela vida. Uma figura envelhecida pelo tempo e dilacerado pelas amarguras de um passado que Pedro imaginava difícil. Sempre vestido com a mesma roupa enegrecida pela sujidade de muitos dias, a mesma barba grisalha descuidada, os mesmos sapatos 3 números acima já rotos em ambas as solas deixando passar frio e chuva.

 

Pedro imaginava-o sem casa… apenas mais um sem-abrigo. Mas havia algo naquele homem que o retirava do campo da habitual indiferença que Pedro reservava a ‘este tipo de pessoas’. Um gesto que ele repetia com irritante frequência. Sempre a mesma acção… uma vez após outra… numa rotina quase levada ao infinito. E esse gesto tornava-o, no mínimo, peculiar.

 

Pedro já o tinha visto repetir aqueles mesmos gestos vezes sem conta e, em consequência, ficava sempre a reflectir na razão que levava o homem a fazer aquilo. O que se esconderia por detrás daquele gesto? Porque razão faria ele aquilo?

 

Naquele dia, o vagabundo ao passar em frente do carro de Pedro lançou-lhe um olhar fugaz, inquisitivo e, ao mesmo tempo, triste. Como que parecendo saber o que ia na mente de Pedro. Pedro desviou o seu olhar. E o homem lá continuou o seu caminho. Repetindo o que sempre fazia: apanhava pequenos objectos do chão e voltava a pousa-los apenas uns passos mais à frente. De olhos quase sempre postos no solo ele curvava-se constantemente para pegar em beatas, pequenos paus, papéis, pedaços de matéria desconhecida e voltava a coloca-los no chão uns metros mais à frente. E fazia isto vezes sem conta, uma após outra… num ciclo interminável.

 

Naquele dia Pedro, sem saber muito bem porquê, decidiu acabar com aquela curiosidade que o assaltava. Após a permissão dada pelo sinal verde, estacionou o seu carro uns metros mais à frente e, ignorando o frio e o nevoeiro que se fazia sentir naquele final de tarde, saiu do veículo fechando a porta ruidosamente e dirigiu-se ao velho. Enquanto caminhava na sua direcção Pedro imaginava as palavras que iria proferir. Não fazia a mínima ideia como iniciar a conversa. Apressou o seu passo e já bem junto ao velho disparou de forma seca e quase ríspida:

 

– Desculpe, há muito tempo que o observo e há algo que me intriga.

– Eu também há muito que te observo – disse o velho – Ao contrário do que as pessoas pensam homens como eu… que vivem escondidos e lançados nos cantos mais escuros das cidades, também temos olhos… também reflectimos… também sentimos dores, amarguras, prazeres e algumas alegrias.

 

O homem disse-lhe estas palavras de forma segura e convicta, como se as tivesse ensaiado mil vezes. E Pedro ficou surpreendido. Estava à espera de todas as respostas… mas não desta. Ficou mudo, sem saber o que dizer. Coube ao velho irromper o silêncio, dando continuidade ao diálogo, dizendo:

 

– Quase sempre as pessoas olham-me… mas não me vêem. O seu olhar trespassa-me… para eles eu sou invisível ou, na melhor das hipóteses, algo que preferiam não ver. O que queres de mim?

 

Pedro aproveitou o repto e lançou-se… decidido a terminar com a dúvida que, inexplicavelmente, o corroía.

 

– Vejo-o frequentemente… e sempre repetindo o mesmo gesto. Mil vezes tentei encontrar o motivo e em todas elas fiquei sem resposta. Porque razão apanha objectos do chão e volta a pousá-los com todo o cuidado uns metros mais à frente?

 

Após ter perguntado Pedro deu conta da sua aparente imbecilidade. Mas, afinal de contas, o que tinha ele a haver com o estranho hábito do velho? Mas agora que a pergunta já estava feito, decidiu levar aquele estranho episódio até ao fim. Olhou intensamente para a barba grisalha que dançava à sua frente, empurrada pelo vento, e aguardou a palavras do curioso homem… e elas não se fizeram esperar:

 

– Respondo à tuas pergunta com outra. O que fazes tu da vida? O que fazes tu para dar cor ao tempo que passas de olhos abertos para o mundo? Que marcas deixas tu?

 

Pedro, de início, não compreendeu estas palavras. – Que raio de perguntas estas! pensou. Estava quase a virar as costas ao seu interlocutor quando lhe assaltou, de uma vaga só, a resposta a todas aquelas perguntas… e pensou naquilo que eram os seus dias. Acordar ainda de madrugada… vestir… comer apressado a torrada e beber o café do dia anterior… dar beijo fugaz à esposa ainda adormecida… carro… estrada… filas… trabalho… almoço… cantina… mais filas… trabalho… cigarro… regresso a casa… carro… estrada… ainda as mesma filas (parecia que nunca mudavam de sítio)… chegar cansado… outro beijo fugaz à esposa… uma hora de televisão sem sentido… jantar… sono… cama… dormir… para depois repetir tudo de novo no dia seguinte. Dia após dia, resumido a esta monótona repetição.

 

Estes pensamentos passaram pela mente de Pedro a uma velocidade vertiginosa. O filme da sua vida nem curta-metragem era. Talvez um anúncio de 15 segundos num qualquer canal temático de interesse nulo. Pedro percebeu então… não havia nada que distinguisse a sua vida, que ele julgava preenchida, do gesto que o velho repetia incessantemente. No fundo era a mesma cor de rotina… o mesmo som da vida a marcar passo… a mesma luz de sentir que se anda mas sempre a mesma escuridão de estar parado.

 

A vida de Pedro, bem vistas as coisas, resumia-se também ela a um apanhar constante de pequenos objectos para, uns metros mais à frente, voltar a pousá-los no chão. A última pergunta do velho batia repetidamente no seu interior, como sinos de uma velha igreja. Pedro… que marcas deixas tu?

 

 

 

 

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