Livre_do_ponto

________________________________ \” apenas aqueles que sabem são verdadeiramente livres \”

74º Tempo – O Bom Professor é…?

Posted by LMML em Outubro 29, 2006

Sem apelo nem agravo (nem devida autorização – espero que o autor P.Guinote seja complacente) roubei este título a dois posts [ este e este] lidos no blogue ‘A Educação do Meu Umbigo’. Retirados de ambos, ressalvo aqui alguns excertos particulares que provocaram a minha reflexão, aconselhando a leitura integral dos mesmos – muito bem escritos, por sinal – :

 

(…) Já quanto a saber o que é um “bom professor” confesso que agora, mais do que nunca, ando cheio de dúvidas. É que fui apanhado de surpresa por um colega meu, 10º escalão, larga experiência de docência e cargos vários, que de sorriso afivelado me inquiriu quando eu espreitei para o espaço dos fumadores, “E tu o que achas que é um bom professor?”. Pois ele próprio andava às voltas com a questão e não lhe encontrava solução (…)

 

(…) É que em perto de 20 anos muita coisa mudou e o conceito de “bom professor” foi naturalmente evoluindo e sofrendo múltiplas transformações, normalmente no sentido do seu alargamento para novos domínios (…)

 

(…) Nos meus primeiros tempos, achava eu que ser um bom professor passava por ensinar o melhor possível os meus alunos, tornando-os capazes (…) de obter bons resultados nos momentos de avaliação e, ambição maior, que esse saber pudesse ser útil no seu futuro; assim como também passava por cumprir as minhas obrigações formais na Escola e não atrapalhar os outros colegas. Este último detalhe não era, de todo, de desprezar (…)”

 

(…) Só que, entretanto, a função do professor desdobrou-se em múltiplas dimensões e, para além de educador, tornou-se um elemento activo de uma ou mais equipas (os Conselhos de Turma), de uma organização (a Escola), um profissional que se pretende reflexivo e crítico (…)”

 

(…) Talvez não saiba definir o que é um “bom professor”, porque tenha o receio de encarar a dura verdade de eu próprio não me considerar um bom professor, um entusiasmado e dedicado elo na grande engrenagem do sistema educativo. Porque não sou capaz de sacrificar todo o meu tempo em prol da Escola, roubando-o à família. Porque não sou capaz apenas de pensar no “trabalho pedagógico” e na sua preparação e perco muito do meu tempo a ler ou mesmo, sacrilégio, a ver televisão. Porque nos fins de semana me recuso a estar horas agarrado a dezenas de testes, procurando o equilíbrio supremo da avaliação justa, ou a conceber “novos materiais” de apoio, e preferindo ir dar um passeio até aos jardins da Gulbenkian (…)”

 

(…) Eu até tenho uma ideia razoavelmente clara sobre o que deve ser um bom professor, em especial se estiver integrado num sistema educativo coerente e em que nas Escolas as funções estejam distribuídas de forma lógica pelos diversos intervenientes (…)”

 

 

Nota: os destacados são do autor dos excertos aqui apresentados, e não meus

 

 

A partir destas reflexões P. Guinote entra depois numa comparação com a ideia do que é ser bom professor aparentemente defendida pelo novo Estatuto da Carreira Docente. [mais uma vez aconselho a leitura dos dois posts referidos]

 

Não entrarei na análise do novo Estatuto. Por várias razões, sendo a principal o facto de já estar um pouco saturado do dito, prefiro afastar o assunto, ainda que por breves momentos, das minhas cogitações.

 

Prefiro aventurar-me, um pouco insano e

antes… levar a minha reflexão sobre o que é ser bom professor para um campo bastante mais lírico… e depressa me recordar de palavras, há muito tempo lidas, do saudoso Sebastião da Gama, em que o próprio indagava reflexivamente sobre o que era ser um bom professor. Dizia ele então:

 (…) Aulas más são aulas que os rapazes não querem ouvir. Mas então – poderia eu defender-me – que culpa temos nós [professores] de os rapazes serem barulhentos, desinquietos e desatentos? É verdade que às vezes a culpa não é nossa: é toda deles, a quem mais apetecia estar na rua que na escola. Mas para isso justamente é que serve o bom professor – e o meu drama resulta de que a mim só me interessa ser bom professor. Ser bom professor consiste em adivinhar a maneira de levar todos os alunos a estarem interessados; a não se lembrarem de que lá fora é melhor. E foi o que eu ontem não consegui (…)”

 

Creio que a pergunta que serve de cabeçalho a este post deverá ser feita em frente de um espelho, para nos ser devolvida… dura… rude… quase crua! De seguida prepararmo-nos para a devorar com insaciedade, mastigando-a com o fervor de facilitar a digestão. E depois, só depois, arriscar uma resposta.

Post-74Oiço, quase todos os dias, lamentos de professores, de pais, das pessoas em geral, de como as coisas estão más… a continuar assim… no meu tempo…. Oiço que a escola de hoje não forma, contempla. Que o ensino de hoje não educa, assiste. Que os professores de hoje não ensinam, aturam. E preocupo-me!

As escolas não são ilhas, com uma ou outra ponte aérea feita por avião duvidoso. As escolas estão lá… no meio… bem imersas naquilo que as rodeia. São por isso uma visão espelhada do mau e do bom… do podre e da frescura… do que se vaia e do que se aplaude…

Não há volta a dar-lhe. A não ser que criemos redomas de vidro protegendo-as de tudo o que as pode corromper, com quem entra a ser sujeito a uma desinfecção eliminando tudo o que seja contaminação exterior.

As escolas estão lá!

Só trabalhando sobre o que as rodeia [o desemprego, a delinquência, o desinteresse cívico, a divorciada cidadania, a probreza, a ausência de valores, o risco, a violência, o desespero social, a fome, a miséria, o novo-riquismo, a opinião fácil, a burocracia, a desigualdade, a injustiça, o desapego, a pressa, a escassez de tempo, a tristeza, o fatalismo, …] é que poderá ser possível tornar muitas das nossas escolas… noutras escolas… novas escolas, melhores escolas. Façam isso e contem comigo! Enquanto essa tarefa hercúlea não for tomada em mãos decididas, prefiro agir, derivando de Sebastião da Gama, na tentativa vã [?] de que aos meus alunos lhes apeteça muito mais estar lá dentro aprendendo a mudar o que de mau irão encontrar lá fora.

 

E não… não sei. Não sei o que é ser bom professor. Mas sei o professor que quero ser!

 

 

 

Uma resposta to “74º Tempo – O Bom Professor é…?”

  1. O problema actual é querer achar a “fórmula” do bom professor.
    Não há, tal como não há receitas para a “boa arte”…

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