Livre_do_ponto

________________________________ \” apenas aqueles que sabem são verdadeiramente livres \”

Archive for the ‘memórias’ Category

Fim de Festa

Posted by LMML em Junho 20, 2008

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Eis que o dia de hoje marca oficialmente o encerramento do ano lectivo, no que diz respeito a aulas, actividades escolares e afins… porque de reuniões, avaliação, ‘fecho de contas’ e preparação para o próximo ano lectivo ainda a ‘procissão vai no adro’.

Foi o meu primeiro ano na Álvaro Velho. Nela fui encontrar, naturalmente, uma realidade em muito diferente da que estive habituado durante três e cinco anos. Fui-me adaptando ao diferente contexto, reorientando os meus objectivos e as minhas práticas na procura da melhor resposta. Agora que o ano finda… sinto que não correu nada mal.

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À imagem do que aconteceu em anos anteriores decidi preparar um singelo cerimonial de despedida com a minha direcção de turma. No final da última aula, em envelope fechado, para além de ter entregue uma caricatura personalizada a cada um deles resultado das minhas aventuras com o Photoshop (abaixo um exemplar devidamente tratado para preservar o anonimato), decidi escrever-lhes uma carta aberta. Escrevi o texto na noite anterior… e tentei fazer dele a súmula do que lhes fui dizendo ao longo do ano de forma mais ou menos intempestiva, mais ou menos calma.

A todos os meus alunos um sincero obrigado e um desejo sincero de que, aqui e ali, as nossas vidas se voltem a cruzar!

Carta aberta aos alunos do 6º E

Conversámos muito durante este ano… bem, para ser mais correcto… foi mais o que eu falei e que os meus caros ouviram (?). Portanto deverão estar a perguntar o que tenho eu ainda para dizer depois de horas e horas de diálogos entre nós. O que tenho eu a acrescentar? O que tenho eu de novo para vos dizer?

Não poderia deixar passar esta última oportunidade, agora que finda o meu papel de vosso professor e de director de turma, para vos endereçar uma mensagem final em jeito de despedida. Aqui vai ela

Durante estes meses tentei que compreendessem e aceitassem a necessidade de estabelecerem para vós objectivos e metas que tivessem um impacto positivo nas vossas vidas, não só em relação ao vosso percurso escolar mas também ao vosso percurso de vida [bem mais importante]. E fi-lo porque, agora com 33 anos, sinto que se alguém [com a honrosa excepção dos meus pais]  o tivesse feito quando tinha a vossa idade poderia ter evitado muitos erros e provavelmente ser melhor pessoa do que sou hoje. Se me tivesse sido dada a oportunidade de perceber desde catraio que deveremos pôr tudo de nós em tudo o que fazemos, de que a procura da excelência, do bem fazer, do saber deverá estar permanentemente envolvida nas nossas escolhas e nos nossos processos de decisão e de acção teria feito toda a diferença. Pois tudo o que fazemos tem um impacto na nossa existência e na existência dos outros. Ter consciência disso é passo importante para colocarmos em prática no nosso dia-a-dia o que de melhor temos para dar aos outros e a nós. Sermos sinceros, honestos, justos, ouvir quem nos tenta ajudar (principalmente os pais), respeitar o outro e tentar fazer o nosso melhor em tudo o que estejamos envolvidos são pedras fundamentais na construção de uma vida que se quer feliz, bem sucedida e digna.

Todos os conselhos que vos tentei dar, todos os valores que vos tentei transmitir, todos os ralhetes que vos dei (por vezes em voz mais destemperada), todas as conversas individuais que tive com cada um de vós, todos os risos que partilhámos, todas as boas notícias que nos alegraram e más notícias que nos entristeceram, aconteceram por uma única razão… fio condutor de toda a relação que tentei estabelecer convosco: a de que ao olharmos para trás, daqui a uns anos, pensemos que terá tudo valido a pena porque seremos então pessoas melhores.

Em tudo aquilo que façam nas vossas vida espero que eu vos tenha ajudado a perceber que não devemos olhar para o passado e pensarmos no que deveríamos, poderíamos ou desejaríamos ter feito. A minha esperança é que tenha dado algum contributo para que ao olharem para trás possam elaborar uma longa lista de feitos, de coisas cumpridas, de sucessos e realizações porque souberam almejar alto, procurando a excelência, ultrapassando as vossas expectativas e dificuldades e realizando todo o vosso potencial… conseguir chegar a uma fase avançada na vida e saber que fizemos algo, que pusemos tudo de nós mesmo nas pequenas coisas que fizemos, que arriscámos em querer ser melhores, mais completos, mais realizados, em que ousámos marcar a positiva diferença… é sensação única de realização pessoal e de elevado compromisso assumido e cumprido.

Estarei sempre ao vosso lado, pronto a ouvir os vossos problemas, os vossos sucessos, as vossas alegrias e tristezas. E desde já saberão que mesmo que nunca nos voltemos a cruzar… e sempre que me chegue aos ouvidas boas novas do vosso sucesso… recebê-las-ei com enorme satisfação e regozijo. Porque a vossa felicidade é também parte essencial da minha.

Para o que precisarem cá estarei!

Considerando-me sempre um vosso professor e eterno amigo

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Livre.do.Ponto Goes 80’s (2)

Posted by LMML em Abril 26, 2008

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Continua hoje um ciclo de video posts em jeito de homenagem a um tempo em que pessoas da minha geração (chamada rasca em tempos) ainda mantinham a inocência e candura da adolescência. Obviamente esta escolha, como qualquer outra,  muito tem de pessoal. São músicas e bandas que me transportam para as manhãs de Sábado em que o meu pai sacava do velho vinil e colocava banda sonora para acompanhar a lide do quotidiano doméstico dos nossos finais de semana.

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Orchestral Manoeuvres in the Dark (OMD) – Enola Gay

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Livre.do.Ponto Goes 80’s (1)

Posted by LMML em Abril 24, 2008

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Iniciarei hoje um ciclo de video posts em jeito de homenagem a um tempo em que pessoas da minha geração (chamada rasca em tempos) ainda mantinham a inocência e candura da adolescência. Obviamente esta escolha, como qualquer outra,  muito tem de pessoal. São músicas e bandas que me transportam para as manhãs de Sábado em que o meu pai sacava do velho vinil e colocava banda sonora para acompanhar a lide do quotidiano doméstico dos nossos finais de semana.

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A Flock of SeagullsI Ran

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Dia Mundial do Livro

Posted by LMML em Abril 23, 2008

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Hoje, 23 de Abril, celebra-se o Dia Mundial do Livro (e do Direito de Autor)… e o simbolismo por detrás do dia 23/04 porque foi nesta data que no mesmo ano [1616) faleceram Shakespeare e Cervantes, sendo também o dia de nascimento ou morte de grandes escritores como Vladimir Nabokov, Maurice Druon ou Mejía Vallejo.

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Confesso o meu vício… mais do que adorar ler, sou um bibliófilo financeiramente limitado… para além do ocasional livro requisitado na biblioteca quando era mais novo, sempre me recusei a ler outros livros que não meus. A relação de afectividade que crio com o livro leva-me à sensação de infidelidade quando, por algum motivo, deixo que outros os leiam. Quando as minhas possibilidades financeiras foram aumentando, aumentaram também as minhas despesas com a compra de tão singular objecto. Bem que a minha esposa me tenta demover por vezes, alertando-me para o equilíbrio do orçamento familiar… por vezes acato a sua sensata recomendação, mas na maioria das vezes sou fraco demais para resistir à tentação.

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E tudo começou com uma colecção de livros que a minha mãe, ainda eu era catraio, comprou como associada do Círculo dos Leitores. As Histórias do Avozinho de Raul Correia… que li de fio a pavio vezes sem conta, nos primeiros tempos apenas admirando as suas fantásticas ilustrações, mais tarde deliciando-me com os textos. Ainda hoje permanecem quase imaculadas na estante da sala dos meus pais… depois de casar, quando mudei de casa e trouxe comigo as minhas malas de cartão qual Linda de Suza, optei por deixá-los lá… achei que era esse o seu lugar natural… a sua casa. E, ainda hoje, lá permanecem eles… empilhados religiosamente em lugar de destaque na estante da sala… como que lembrando onde a minha história começou.

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E o meu filho parece seguir a mesma paixão… desde cedo que nós temos por hábito quase semanal oferecer-lhe 1/2 livros. Ou porque se portou bem, ou porque ajudou os pais na lide doméstica ou apenas porque sim… e raro é o dia em que pelas mãos do meu filho não passe um ou mais livros… sendo certinho a história do final do dia, ao deitar. E não deixo de me sentir extremamente feliz quando vejo o M. introspectivo a olhar para as suas prateleiras de livros escolhendo com especial cuidado qual o livro que levará para o colégio ou que entregará à Mãe para estar ler-lho ao deitar…

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Hoje foi este…

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Diário de Bordo – Dos 10 minutinhos à AJAX

Posted by LMML em Abril 17, 2008

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16.Abril.2008 – Quinta-Feira – 22.45 h.

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Hoje, a propósito de algo que já contarei adiante, lembrei-me das minhas tardes de catraio em que passava longas horas jogando à bola com o resto da maralhada amiga. Já lá vão uns vinte anos… tinha eu então os meus 13/14.

Era inevitável… não precisávamos de agenda, de palm pilots, de calendários, nem de acordo prévio… a partir das 18 horas em dia de escola… pouco depois do almoço ao fim de semana ou mais cedo se a malta conseguisse convencer os pais. O campo escolhido era sempre o mesmo… exceptuando quando, em tempo de férias, tínhamos os nossos torneios de Verão inter-ruas [a malta Zona Sul, a malta do Racing, a malta dos Alentejanos, a rapaziada da Igreja, a rapaziada da Baixa da Serra… e nós… os putos da Projectada – por ser mesmo esse o nome da rua “Rua Projectada à Rua da Beiras”]… quando chegavam os torneios de Verão era coisa séria. Havia jogos em casa e jogos fora, invasões de campo, penalties em caso de empate, jogos de castigo para cartões, jogos interrompidos porque uma das equipas amuava com o árbitro (normalmente um de nós na 1ª parte e um deles na 2ª)…

creio até recordar-me  de um jogo que, em sinal protesto com a arbitragem tendenciosa e parcial do Sérgio, abandonámos o campo numa decisão colectiva e reflectida deixando-o a falar sozinho… e o Sérgio até era dos nossos, da Projectada… portanto o nosso sentido de justiça não conhecia (ainda?) limites impostos pela amizade ou proximidade familiar.

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Mas seguindo…

o campo era sempre o mesmo. Eu era dos mais sortudos… a rua, hoje alcatroada e ponto de passagem de centenas de carros por dia, nada mais era do que um caminho de terra batida descendo a rua da Igreja em direcção às oliveiras da Baixa da Serra – onde agora é uma das praças da Baixa da Banheira. Rua que alagava quando chovia copiosamente e destilava pó e areia nos dias mais quentes… mas o campo ficava bem em frente à minha casa… e no lado oposto à taberna do Retiro dos Caçadores. Aliás, tenho bem presente a imagem do meu pai à varanda do 2º esquerdo a deliciar-se (ou seria a rir às bandeiras despregadas?) com a nossa qualidade futebolística e zangas sucessivas que enchiam de gritos de criança todas as salas e quartos dos prédios que davam para o largo da Projectada: ora porque a bola não tinha passado a linha, ora porque não se podia atrasar ao guarda-redes [visionários éramos, pois mais tarde foi regra adoptada pela FIFA!!!], ora porque o “Zé ‘tá sempre à mama!” ou “o Janeiro só dá é porrada!”.

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Nos jogos mais renhidos ou nos jogos inter-ruas, aproveitávamos o intervalo para organizar o esquema táctico e as instruções para cada um de nós (“- Zé, vai para a mama que cá atrás só atrapalhas!” “-Janeiro, o Luís Ervilha hoje ‘tá em grande… mas tem canelinhas de vidro… porrada nele pá!”).

E depois lá vinha sempre a frase com que fechávamos a palestra ao intervalo… nunca soube de onde veio aquela frase… ainda hoje me lembro dela e desde sempre a tenho utilizado nas mais diversas situações… até quando – e principalmente quando – em trabalho…

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Vá lá malta…. são dez minutinhos à AJAX!!! – dizia sempre um de nós com o peito vincado de esperança e combatividade mesmo que o resultado fosse 15-7 para os outros… – não se espantem… quem j

ogou à bola na rua sabe que era um resultado perfeitamente comum em consequência do elevado calibre técnico-táctico dos jogadores…

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Dez minutinhos à AJAX! Nunca percebi muito bem o porquê do AJAX… afinal até éramos quase todos ou do Benfica ou do Sporting… mas naquela altura era o AJAX que dava cartas (ou tinha dado mais recentemente) nos jogos europeus que nós víamos na televisão de canal único…

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Dez minutinhos à AJAX!  era sinal de muita corrida, muita entrega na disputa da bola (aiii as tuas canelas Luís Miguel… é só nódoas negras! – dizia a minha mãe quando eu chegava a casa… e o “Luís Miguel” em vez do pacato “Miguel” só era utilizado pela minha mãe quando as coisas estavam bem azedas para o meu lado!)… muito força de vontade, muita concentração e empenho, não dando nada por perdido e contando com todos para fazermos passar a bola pelo Lixívia (guarda-redes da malta do Racing) o maior número de vezes no curto espaço de tempo!

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Dez minutinhos à Ajax! – bastava dizer estas palavras para sabermos todos, num ápice, do que se tratava e o que tínhamos a fazer. Sempre dava menos trabalho que repetir aquele relambório do parágrafo anterior.

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Desde então até aos dias de hoje utilizo muito esta frase… em quase tudo o que faço que exija lutar contra a adversidade ou momentos mais complicados e difíceis. Incluindo nas aulas!!!

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Normalmente, ainda nas primeiras aulas que tenho com cada uma das turmas e quando a situação se proporciona, conto rapidamente o significado da expressão “Dez minutinhos à AJAX!” e partir daquele dia, uma vez por outra… quando vejo que o tempo aperta, a matéria dificulta, ou que a concentração, empenho e persistência não abundam lá lhes lanço o grito a meio da aula – “Rapaziada… precisamos de dez minutinhos à AJAX! Vamos a isto!” E lá me aplico eu, e eles, na explicação da matéria mais complicada para os miúdos com o mesmo empenho e entrega que corria atrás do Ervilha para lhe aquecer as canelas ou fuzilava o Lixívia com um petardo do meio da rua (literalmente!).

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Há já algum tempo que não utilizava a frase com o 5H… e daí ter ficado extremamente surpreendido com o comentário do J. no final da aula… e que aula!!! 90 minutos de puro deleite. Todos concentrados… todos a participar ordeiramente e com sentido de Estado: ora colocando dúvidas, ora respondendo a questões… ora esclarecendo dúvidas de colegas. Ninguém ficava de fora, todos tiveram o seu tempo de resposta… os que normalmente precisam de mais tempo para perceber e fazer a terem tempo e espaço para progredirem, ora com a minha ajuda ora com a ajuda dos colegas. IMPRESSIONANTE! Ele foi pronomes interrogativos, pronomes pessoais, determinantes possessivos, compreensão de leitura, perguntas de interpretação, vocabulário novo, verbos… e os miúdos 5 estrelas: empenhados, trabalhadores, interessados… tudo em sintonia: Eu e eles, eles e eu, eles e eles! E os minutos corriam sem que ninguém desse pelo seu passar…

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No final fiz questão de lhes dizer: há muito tempo que não tinha uma aula assim… em que parecia terem-se todos os astros alinhado para baixar sobre nós um momento único de ensinar e aprender. Disse-lhes isso e muito mais… com o coração apertado por dentro por os sentir tão realizados e satisfeitos com o que tinham acabado de fazer…

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E depois… quase à hora da saída… o J. disse-me algo com uma voz tão baixa e tímida (é do seu feitio) que tive de lhe pedir para repetir duas ou três vezes…

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Hoje foram 90 minutinhos à AJAX ‘store!!

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Pois foram J.!

Pois foram!

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